domingo, 23 de junho de 2013

Cultura....

O que é cultura? como é cultura? Do latim colere, que significa cultivar. Cultura se experimenta não se decora! Venho experimentando coisas novas nos últimos tempos, mas com um olhar mais atento e desacelerado. Tudo o que vejo, ouço, degusto, sinto; percorrem pelas minhas veias, pelas minhas sinapses. Encontro marcado com memórias perdidas, que se renovam ao encher de sentido e cor a magnifica simplicidade da vida.... minha vida, meu mundo interno. Nesta viagem para dentro encontro com o "outro", que estava tao distante, tao estranho a mim.
Cultivo olhares, coleciono frases, lágrimas, risos, pensamentos, brigas, decepções. Não as minhas, mas a de meus próximos, de meus semelhantes, meus desiguais. Que me ajudam a entender quem sou e para onde vou. Isso tudo, e que ainda é pouco, me ajuda a entender o humano, o sujeito que está sentado diante de mim me mostrando suas feridas, seus feitos, suas dúvidas.
Cultivo do micro da subjetividade ao macro do social. O que ainda não entendo eu guardo, eu aguardo!
Sinto-me livre para pensar e sentir o que vier, os limites estão postos e apostos para fazer borda, pra dar segurança. Não mais para cortar, amputar, restringir oque sou... quem sou.
Solitude na medida certa para que o barulho do mundo não me atrapalhe de ouvir o coração de quem esta diante de mim. Auto conhecimento para que o barulho do meu coração não me impeça de ouvir o mundo.
Prazer de viver, de estar com amigos, meus amores, de me portar como as águas de um riacho, mesmo que tentem me impedir, me criticar, me abandonar, vou seguir meu curso....pra encontrar o seu.

domingo, 29 de julho de 2012

Em troca de quê?

É claro que para um profissional liberal sobreviver é necessário trabalhar em troca de dinheiro, pois há um bocado de obrigações como as despesas com consultório (aluguel, luz, impostos), despesas pessoais (moradia, alimentação, transporte, plano de saúde), entre outras tantas necessidades que nos deixam de cabelos em pé.
Mas há uma questão importante, que acomete os psicólogos clínicos que é a formação de seu nome e sua clientela. Como fazer? Bem há uma série de ações que podemos e devemos tomar desde o momento em que decidimos nos tornar psicoterapeutas, como os três pontos tão fortemente abordados desde a graduação: estudos, saúde mental pessoal e supervisão dos casos clínicos.
Neste ponto acrescento mais um, a prática. Poderíamos pensar que a prática está subentendida em meio aos três pontos citados acima, mas considero importante falar dela em especial.
Não é atoa que temos vários estágios desde os primeiros anos da graduação, começando com observação até chegar ao ponto de podermos intervir efetivamente em empresas, escolas, comunidade e pacientes. Em se tratando de psicoterapia é no último ano do curso de Psicologia que temos maior contato com pacientes. Este contato geralmente ocorre nas clínicas escola das universidades, mas também é possível fazer estágios em instituições privadas ou governamentais que comportam esta modalidade. É no real contato com pacientes que adquirimos maior compreensão da parte teórica.
Muitos não sabem, mas podemos estender o "estágio" após a formatura transformando-o em trabalho voluntário. Muitos podem pensar que é bobagem ou perda de tempo, mas trabalho voluntário é uma ótima forma de treinar suas habilidades, aprender coisas novas e ainda fazer uma boa ação!
Penso que o trabalho voluntário funciona também como marketing pessoal, onde o profissional não apenas fala de seu trabalho, mas mostra. O profissional amplia sua rede de contatos oportunizando a indicação de pacientes ao seu consultório privado, além de outras vantagens como a de tornar conhecidas as suas ações, habilidades e especificidades de sua atuação como psicólogo e psicoterapeuta.
Busque, interaja, corra atrás de locais que estão esperando profissionais que desejam ajudar uma parte da população que não pode pagar por este tipo de serviço!

Dica:
- A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul oportuniza trabalho voluntário para psicólogos. Acesse o site e informe-se! http://www.dpe.rs.gov.br/site/estagios.php?cat=3

sábado, 21 de janeiro de 2012

Condições para que a neve aconteça...

“Apenas aquilo que é re-contado, re-dito, re-lembrado torna-se história” Hillman, 1926
Não temos como prever um insight, mas hoje pensei sobre as condições ideais para seu acontecimento. Sim, um insight acontece! Ele é parte viva da vida psíquica, é o surgimento de uma bolha de ar vinda das profundezas do oceano do inconsciente, mas esta bolha não surge sem propósito, ela certamente tem um objetivo e fortes atrativos atmosféricos para saber que é a hora de juntar-se a grande massa de oxigênio da consciência. Fui instigada a pensar sobre este fenômeno, pois o insight que me aconteceu precisou de experiência de vida, da parcela de dor de meus pacientes que tocam as minhas próprias feridas, lágrimas, análise, supervisão, conversa com amigos, risos, e mais algumas lágrimas – não necessariamente nesta ordem! É preciso haver temperatura e pressão atmosférica ideais, acrescidos de precipitação para que a neve aconteça! Não sei o que é necessário para que tu tenhas seu próprio insight, mas sei o que me ocorreu hoje. Uma sala aconchegante, duas pessoas empáticas e dispostas a ouvir e a falar, o poder das livre associações, a curiosidade do interlocutor, saber que ambos são imperfeitos seres humanos que tentam acertar. O que sai da boca de um não é igual ao que entra nos ouvidos do outro. Poder ouvir de verdade é poder enxergar os retratos de imagens, sons, sensações. Ao associar inadvertidamente o que penso de mim, o que penso sobre aquilo que me mobiliza da vida de meus pacientes naquele momento, o que me ocorreu de meu passado, compõem toda a simbologia do que está se passando em minha vida psíquica inconsciente. A sensação que tive foi de abertura das comportas de uma hidroelétrica que estava fechada para reparos, e talvez por isso, depois de meses, consegui novamente escrever neste blog. Com isto consegui energia suficiente para pensar em como está a minha escuta nos casos que estou atendendo. Analisando cada caso faço um resumo, uma terceira coisa, um esboço de um retrato já borrado e ainda com os respingos de minha própria palheta de cores. É intrigante e belo como vivenciamos a transferência, a contra-transferência e as identificações projetivas, nomes difíceis e significados quase impossíveis de serem entendidos sem sentirmos na pele. Como já disse Hillman, 1926: “Os fatos não mudam, mas a sua ordem recebe outra dimensão através de outro mito. Eles são experimentados diferentemente; ganham outro sentido porque são contados através de outro conto.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Falar mal do terapeuta anterior é.....

Nos atendimentos iniciais, uma pessoa que busca psicoterapia, inclusive nós psicólogos, conta o que o motivou para tratamento, suas principais queixas, um pouco de sua históra e se houveram e/ou como foram suas experiencias anteriores com psicoterapia. Bem, na postagem de hoje, atento para o cuidado ao lidar com as experiências anteriores dos pacientes, principalmente se estas forem ruins.
O primeiro e principal manejo é o famoso "apenas ouça o que a pessoa tem a dizer", qualquer comentário que você faça imediatamente corre o real perigo de ser absorvido de modo polarizado, o paciente entenderá que você o está defendendo contra as "maldades" ou "incompetências" do(s) terapeuta(s) anterior(es); ou entenderá que você defende seu colega e seu paciente sentirá que está errado em sua percepção.
No primeiro caso o risco é de estabelecer um vinculo de dependência e a psicoterapia se transforma em uma terapia de apoio. E no segundo caso o paciente pode ter um pensamento de ordem persecutória e com isto diversas reações que dependerão do seu modo de funcionamento. Há pessoas que ficam em silêncio e sorriem, passando a impressão que está tudo bem; e há pessoas que ficam bravas e prontamente falam aquilo que pensam.
O segundo manejo é ajudar seu paciente a buscar mais informações sobre sua impressão. Detalhar e aprofundar o assunto sempre traz as nuances da situação e a possibilidade do sujeito responsabilizar-se por sua parte da relação e talvez perceber seu(s) terapeuta(s) anterior(es) de modo mais realista.
O que precisa ficar claro é que o terapeuta atual não estava junto no(s) tratamento(s) anterior(es), portanto, mesmo que quisesse, não tem como tomar partido de nenhum dos lados. O que está ao alcance de sua função como terapeuta é ajudar o paciente a pensar amplamente sobre as questões e buscar recursos proprios para implicar-se e compreender a situação como um todo.
É importante também ressaltar que ao falar de experiências anteriores em psicoterapia, o paciente está dando dicas de como se relacionou e como pode vir a se relacionar com você, o terapeuta atual, portanto "falar mal do terapeuta anterior é falar mal de si mesmo" já que trabalhamos com simbolos no setting terapêutico. Ajudar o paciente a compreender a relação com terapeuta(s) anterior(es) é ajudá-lo a vivenciar de maneira mais realista a relação com o terapeuta atual e tambem consigo mesmo.

domingo, 31 de julho de 2011

Para começar

O trabalho de psicólogo clínico não é nada fácil. Para começar, são cinco anos de estudos e breves práticas, e muito sofrimento psíquico e mudanças pessoais. Depois temos o grande rito de passagem, a tão esperada formatura, que nos estica para dois lados como elástico a ponto de arrebentar. Nos sentimos felizes pelo término de um período árduo de esforços e o diploma vem como uma grande conquista, mas no momento seguinte, nos sentimos apavorados com o início da vida profissional. Ahhhh, é aí que começa a grande batalha. Uma série de responsabilidades e deveres para um vislumbre de retorno em dois anos, isto sendo bem otimista!
As bases de uma clínica bem estruturada são análise pessoal, supervisão dos casos atendidos e estudos, o que a princípio pode parecer muito simples, mas na prática, nos leva novamente para o sofrimento psíquico e mudanças pessoais referidas lá no período da faculdade, lembra?
Ah, mas agora este sofrimento psíquico e mudanças pessoais têm mais corpo. Elas tem agora um peso diferente, que é responsabilizar-se não somente por ti, mas também pelas pessoas que estão sob seus cuidados. E por incrível que pareça este fator, que a princípio pode parecer o mais assustador, na verdade é o que te dá forças, pois ao ter o compromisso com o outro a atenção muda e você se torna capaz de doar mais de ti para um propósito.
Ou seja, de uma posição de filho, onde tendemos a querer agradar os pais e estar de acordo com as regras impostas, passamos a um posição de pais (pai e mãe), onde ainda temos o princípio de filho, mas acrescido de uma autorização, de um compromisso de cuidar de alguém e muitas vezes fazer sacrifícios que no fim do dia valem muito a pena.
Com isto, quero dizer que a clínica vale muito a pena, pois crescemos, aprendemos e passamos a ficar mais confiantes de que a cada tijolinho colocado estamos fazendo uma casa, uma estrutura que comporte tanto o psicoterapêuta quanto seus pacientes. E é a qualidade dos materiais e o modo de construção que dirão se esta casa ficará em pé ou ruirá no primeiro terremoto.